O dia se espatifa: aspas
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domingo, 21 de outubro de 2007

Para começar bem a semana

Dando uma de Camila Saccomori no seu Fora de Série, vou usar uma inspiração serística pra começar a nova semana num astral melhor do que a que passou. No episódio de E.R. reprisado no fim de semana, a Abby fala para o Luka alguns versos deste lindo poema de e.e. cummings:
i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)

i fear no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Pra começar bem a semana

Vou dar um CTRL C + CTRL V descarado no meu querido amigo (e guru) Sérgio Augusto e reproduzir aqui o texto dele que saiu no caderno Aliás d'O Estado de S. Paulo deste domingo. Reproduzo porque não sei se o link estará valendo ainda amanhã. Reproduzo porque, como é de costume, ele escreve com brilhantismo o que um dia eu gostaria de conseguir escrever com pelo menos competência.
Deu a louca no globo
Mianmar ou Burma? Pequim ou Beijing? Mumbai ou Bombaim? A geopolítica nunca foi tão semanticamente complicada

Sérgio Augusto

Criticaram o presidente Bush por chamar Myanmar de Burma, a nossa velha conhecida Birmânia, onde há semanas o pau voltou a comer grosso. Em seu blog na revista The Atlantic Monthly, o jornalista James Fallows saiu em defesa do presidente, que, a seu ver, teria demonstrado respeito ao oprimido povo birmanês ao desprezar o nome imposto àquele país por uma junta militar, já lá se vão 18 anos.

Para Fallows, aceitar Mianmar significa curvar-se aos caprichos dos generais que se recusaram a dar posse e mantêm sob vigília a primeira-ministra (e Nobel da Paz de 1991) Aung San Suu Kyi. As corporações que lá mantêm negócios, como a General Motors, a Caterpillar e a UnoCal, continuam se lixando para as atrocidades dos milicos birmaneses e, mais ainda, para a controvérsia semântica em curso desde a semana passada.

Antes de erguer um brinde à sensibilidade e à coragem política de Bush, considere duas coisas: 1) a desimportância econômica de Mianmar (muito arroz, muito ópio, muitíssimo menos petróleo que o Iraque); 2) a dificuldade de Bush para pronunciar corretamente Myanmar (Burma é fácil).

Embora saiba pronunciar o novo nome da Birmânia, e até uma de suas variações: Mranma, também prefiro Burma. Mais por razões afetivas do que políticas. Cresci ouvindo falar em Burma e Birmânia, locação e referência em filmes como Objective Burma (Um Punhado de Bravos, 1945), A Harpa Birmanesa (1956) e A Ponte do Rio Kwai (1957). A ponte sobre o rio Kwai uniria a Birmânia ao Sião. Quando o filme foi rodado, Sião já era Tailândia havia oito anos, mas o país onde foram feitas as filmagens só deixaria de ser Ceilão (para virar Sri Lanka) 15 depois.

No globo terrestre, é grande e permanente a confusão nomenclatória. Só quem tem mais de 77 anos, por exemplo, pegou Constantinopla como a capital da Turquia. Só descobri, garoto ainda, que Istambul outrora se chamara Constantinopla num disco de Caterina Valente, em que também aprendi que Nova York fora, um dia, Nova Amsterdã. Com o surto de independência das colônias africanas e asiáticas, na virada dos anos 50 para os 60, e mesmo antes disso, nossos conhecimentos geográficos tornaram-se ainda mais precários. E os atlas passaram a sair da gráfica já ultrapassados.

Saiu Pérsia, entrou Irã. Onde antes ficava a Abissínia surgiu a Etiópia. Mali era o Sudão Francês. Em 1945, a capital da Indonésia dormiu Batavia e acordou Jacarta. A Indochina virou Vietnã. Ao Congo sucedeu o Zaire, embora Congo seja o nome “autêntico”. São Petersburgo voltou a ser São Petersburgo após ter sido Petrogrado e Leningrado. Rodésia e Basutolândia agora são, respectivamente, Zimbábue e Lesoto. Benin foi Daomé até 1975. Quando em suas savanas filmaram Hatari!, Tanzânia (ou Tanzanía, na pronúncia local) chamava-se Tanganica. Fui e voltei de um safári africano, em 1984, sem me dar conta de que, enquanto fotografava a bicharada no Quênia e Tanzânia, o presidente Thomas Sankara rebatizara o Alto Volta de Burkina Fasso.

O jornalista escocês Alex Massie entrou na discussão provocada por James Fallows e sugeriu que nos recusássemos a dizer Mumbai, em vez de Bombay (Bombaim), e Chennai, em vez de Madras. Crente que estava robustecendo seu argumento, perguntou se os povos de língua inglesa, por acaso, dizem Venezia, München e Köln, em vez de Venice, Munich e Cologne. Mais do que uma discussão bizantina, um festival de equívocos.

Primeiro equívoco: Mianmar não foi uma invenção do general Saw Maung e seus golpistas amestrados. Marco Polo já teria usado essa palavra, oito séculos atrás. Como a primeira tribo com que os indianos lá toparam não se chamava Mianmar, e sim Brahma, Brahma vingou e virou Burma (pronuncia-se Bã-ma), com o império britânico lá dando as cartas a partir de 1885. Burma, portanto, não é um nome “puro”, mas batismo colonialista - como Bombaim e Madras. Não bastasse, Mianmar é um termo mais inclusivo, pois os birmaneses constituem apenas uma parcela da população, dividida em diversas etnias.

O que fazer? Consultar a população sobre sua preferência, sondagem que a junta militar birmanesa na certa impediria. Ou adotar o que a ONU sancionou.

Dizem que Aung Suu Kyi prefere Burma. O jornal tailandês Bangkok Post continua chamando Mianmar de Burma e Yangon de Rangoon (Rangum). Pois é, até o nome da capital a junta mudou, assim como os de outras localidades: Arakan, Karemi, que há tempos se chamam Rahkine e Khayahn. Ainda bem que mantiveram Mandalay. Num e-mail ao New York Times, o birmanês Maung Lwin defendeu Burma, afirmando que seus conterrâneos ainda dizem “Bã-ma” e receiam ser identificados pelo gentílico “myanmese” - e apelidados de maionese. A ONU aceitou Mianmar.

Segundo equívoco: Mumbai e Chennai não foram impostos por um governo ilegítimo ou uma ditadura sanguinária. São opções nacionalistas, livremente implementadas e com base em identidades milenares e fidelidades lingüísticas, o oposto de Bombaim (corruptela do português “Boa Bahia”), Madras, Calcutá (agora Kolkatta) e Bangalore (oficialmente Bengaluru), denominações tão forasteiras quanto Flórida (era assim que os conquistadores espanhóis se referiam à América do Norte no século 16) e Virgínia (a versão britânica da Flórida espanhola). A propósito, Mumbai é uma homenagem a Mambadevi, uma deusa de pedra do século 3º.

Terceiro equívoco: por que não rejeitar todos os nomes de países e cidades estabelecidos por governantes que chegaram ao poder de forma ilegal e violenta? Sim, daria a maior confusão. E se ameaçasse os interesses das grandes corporações globalizadas, babau. Isso não significa que devamos nos bater para que a ONU, a Casa Branca e as nações livres do Ocidente se recusem a chamar Pequim de Beijing, Cantão de Guangzhou, Nanquim de Nanjing, e, em represália ao repressivo governo da China (Zhongguo para os nativos), adotem o nome pelo qual os tibetanos se referem ao monte Everest: Qomolangma (Mãe do Universo). Falando nisso, os nepaleses o chamam de Sagarmatha (Rosto do céu). Também serviria, caso a represália tivesse algum sentido prático.

Quarto equívoco: estão confundindo o que se supõe politicamente correto com meros casos de heteronomias e transliteração. Pequim (ou, à inglesa, Peking) não virou Beijing, nem Mao Tsé-Tung agora é Mao Zedong, por teimosia ou rompante autoritário dos chineses. Beijing, como Zedong, Guangzhou (ex-Cantão) e tantos outros vocábulos com os quais convivemos há mais de um século, não é um rebatismo, mas uma reanglicização mais próxima do foneticismo (ou da pronúncia) mandarim. Como não usa o alfabeto romano, a língua chinesa tornou-se escrava da transliteração. Há mais de um século, o sistema de romanização Wade-Giles dicionarizou Peking, Canton, Nanking, etc. Beijing é fruto do sistema mais moderno de Hanyu Pinyin.

Que ninguém perca o sono por causa dessas bagatelas semânticas. Até porque, no Brasil, a gente não pede “Peking duck”, mas pato laqueado.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Link necessário

Como não consigo escrever assim, mas assino embaixo, copio e colo um trecho para dar o gostinho e dou link para o blog. Com vocês, again, Ricardo Freire:
Ando intranqüilo, desmilingüido. Não sei se agüento. Desculpe a rima, mas talvez precise de um ungüento. Com freqüência tenho sonhado com pingüins bilíngües e eqüinos grandiloqüentes. Achava que não teria maiores conseqüências, mas agora tenho medo de seqüelas. Você já viu os sagüis da Anhangüera? Os seqüestradores foram alcagüetados por delinqüentes que gostavam de lingüiça.

Desculpe. Eu sei que nada disso faz sentido. Mas é que não tenho muito tempo. Preciso gastar meu estoque de tremas até o fim do ano. Em 2008, dizem, uma reforma ortográfica abater-se-á (mesóclise proposital: deixa o assunto mais pesado) sobre nossos teclados, exterminando o trema do lado de cá do Atlântico. (Em Portugal já não existe há muitos, ahn, qüinqüênios.)

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Congonhas e o Kid Trovão

E eu aterrissei em Congonhas. E, creio que junto com todos os outros passageiros, suspirei de alívio quando o avião parou na pista. E ele parou muito rápido, muito mais do que o normal, depois de um vôo impecável da Varig. E vi, no caminho para o hotel, a cena desoladora do prédio atingido pelo avião, anteontem. E descobri pelos queridos amigos que me deram carona (numa daquelas agradáveis coincidências que a vida nos proporciona) que, enquanto eu estava no ar, foi divulgada uma possível irresponsabilidade da TAM. E cheguei ao hotel exausta, só então percebendo o quanto o monte de comentários sobre a tragédia e os "que coragem, hein?" "tem certeza?" e "não dá pra adiar" dos amigos e conhecidos me deixaram tensa.

*

Lá em cima, comecei a leitura do so far delicioso Vida e Época de Kid Trovão, do meu ídalo Bill Bryson, de quem eu ainda não acabei de ler o podre de interessante Breve História de Quase Tudo, que consumo em doses homeopáticas há um ano e meio e está criando teia de aranha ali na esquerda e do qual já falei aqui.

Quer uma amostrinha do livro - que traz a visão bem-humoradíssima do autor sobre os Estados Unidos dos anos cinqüenta? Sente só (na tradução de Bruno Gomide, para a Cia. das Letras):

Os banheiros do Bishop's tinham as únicas privadas atômicas do mundo - ao menos as únicas que encontrei. Quando se dava a descarga, o assento levantava automaticamente e entrava numa reentrância na parede com a mesma forma do assento, onde era banhado numa luz púrpura que vibrava dum jeito tépido, higiênico, de avançada tecnologia, então descia de volta com suavidade, impecavelmente desinfetado, agradavelmente aquecido e praticamente pulsando com termoluminescência atômica. Só Deus sabe quantos iowanos morreram de casos inexplicáveis de câncer na bunda durante os anos 1950 e 1960, mas valeu cada nádega ressequida.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Máxima das oito

"Burro honesto pode. Canalha esperto tudo bem. Agora, canalha burro não pode. Não pode!"
Como não gostar de uma novela de Gilberto Braga?

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Frase do dia

"Se melhorar, melhora", respondeu à pergunta de como vai a vida o meu querido amigo de pós-infância Luiz Antonio, que me apresentou a Tom Waits, Pink Floyd e à tese de que alguns de nós já nascemos velhos. Professor de filosofia na valorosa Manchester Paulista, ele acaba de entrar na blogosfera com um blog coletivo.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Falou e disse

O artigo abaixo, que está na Folha de S. Paulo de hoje, é uma boa ilustração de por que eu não li um livro sequer do Paulo Coelho, provavelmente não lerei um livro do Paulo Coelho nesta encarnação, mas sou fã do Paulo Coelho.
O que é "contexto desfavorável"?

PAULO COELHO

Tenho uma grande admiração por Roberto Carlos - recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.

Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.
Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado.

Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.

Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de "Roberto Carlos em Detalhes".

Até hoje, desde que publiquei "O Diário de um Mago", há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.

Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.

Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto -ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura.

Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.

Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".

Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.

E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.

Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.
O clipping foi cortesia do meu amigo Diego de Godoy, que não tem site nem blog, por isso não ganha link aqui. (Eu não leio a Folha.)

sábado, 14 de abril de 2007

De volta ao papel

Hoje é um texto meu que cito aqui. Saiu na central do Segundo Caderno da Zero Hora de hoje. Coincidentemente, ao lado de um texto do Márcio.

Do medo de trair Kurt Vonnegut

CÁSSIA ZANON *

Os livros de Kurt Vonnegut Jr - escritor americano que morreu na última quarta, em Nova York - têm ilustrações e linguagem coloquial. A narrativa, muitas vezes circular, traz expressões que se repetem ao longo da história. O vocabulário, simples, não exige um conhecimento muito avançado da língua inglesa para ser compreendido no original. Nada a temer ao ser incumbida de sua tradução, certo? Em termos.

Assim que comentei com amigos sobre a tarefa, comecei a sentir o tipo de cobrança que viria. Gente muito boa saudava a reedição de dois títulos que estavam esgotados havia muito. Eram leitores que se gabavam de ter uma edição de Cama de Gato ou Almoço dos Campeões ou Matadouro 5, ainda que aos pedaços. O cumprimento pelo que consideravam uma honraria vinha quase que invariavelmente seguido por uma advertência: "Vê lá, hein? Cuidado com essa tradução".

Em respeito a essa idolatria que, em 2004, por desconhecer a obra, custava a compreender, resolvi fazer um reconhecimento do terreno e ler os títulos que tinha à mão na ocasião - Timequake e Pastelão - e percorrer os incontáveis sites sobre sua obra. O objetivo era tentar entender o porquê de, mais do que leitores, o homem ter seguidores. Resultado: quando finalmente abri Slaughterhouse 5 para começar a transformá-lo em Matadouro 5, eu mesma havia me transformado numa admiradora.

Para se ter uma idéia do significado de Vonnegut para os fãs, no dia seguinte à morte do escritor, o site Technorati (www.technorati.com), que acompanha a movimentação em sites do mundo todo, mostrava que "kurt vonnegut" havia sido a terceira expressão mais pesquisada do dia. Além disso, até o começo da manhã de ontem, um novo post de blog vinha sendo publicado a cada instante em algum ponto do planeta lamentando a perda. Aos 84 anos, na avaliação dos admiradores, ele foi embora cedo demais. No site do The New York Times, o obituário de Vonnegut aparecia como a notícia mais lida do dia.

Foi provavelmente por ter adquirido essa noção, aliás, que não estranhei quando, na comunidade "Kurt Vonnegut (Brasil)" do Orkut, levei um puxão de orelha de um dos membros por causa da frase final de Matadouro 5: "Pode parecer uma bobagem, mas por que você traduziu a onomatopéia para 'piu-piu-piu'? (Isto é sério, pois acho a anterior, piu-lu-tui..., mais interessante...)" - ele se referia à primeira tradução. Bobagem alguma.

Sem exagero, a escolha da melhor tradução para o original "poo-tee-weet" me tirou horas de sono. Então, expliquei ter optado pela simplicidade do piu-piu-piu numa tentativa de me manter fiel à singeleza do original. Devo admitir que, ao saber da morte de Vonnegut, repassei essa e várias outras escolhas que fiz. E torci muito que ele não tenha tido motivos para se sentir traído.

* Jornalista. Traduziu os livros Matadouro 5 e Café-da-Manhã dos Campeões para a editora L&PM

quarta-feira, 11 de abril de 2007

De escritores e leitores

Diz o Sérgio Rodrigues, cujo As Sementes de Flowerville que estava perdido desde janeiro na bagunça da reforma achei ontem e começarei a ler hoje, em entrevista ao Digestivo Cultural:

(...) eu às vezes me pego pensando: puxa, tão pouca gente lendo ficção no Brasil e tanta gente escrevendo... Me lembra o tempo, ali em meados dos anos 80, em que todo mundo que não tinha uma banda de rock era “videomaker”. Hoje, parece, só dá escritor. O que é esquisito, se você parar para pensar. Por que não aproveitam essa paixão para se dedicarem a ser grandes leitores, leitores notáveis, mercadoria de que precisamos desesperadamente, em vez de serem escritores medianos como tantos outros? O Borges dizia se orgulhar mais dos livros que tinha lido do que daqueles que tinha escrito. Um pouco dessa humildade – mesmo que ela tenha muito de pose, no caso do gênio argentino – nos faria bem.
E eu não poderia concordar mais.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Ah, o talento

Nada como a pessoa saber escrever. Com este texto sobre blogs de viagens, o Riq fala (muito) bem sobre tal Web 2.0.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Da série coisas que eu queria ter escrito

Eu quero ver a Sandy em Porto Alegre. Como me falta o tempo e principalmente o talento para falar sobre isso, uso do copy+paste para fazer minhas as belissimamente escritas palavras do Paulo Roberto Pires:
Sandy,de novo, e o gosto dos outros

Eu gosto da Sandy, escrevia eu, comendo minhas goiabinhas (obrigado, Stanislaw), quando a caixa de comentários do post retrasado virou uma divertidíssima confusão entre o fã-clube de carteirinha da mocinha e os chamados “amantes do jazz”.

Esta discussão sobre as supostas breguice e falta de talento da Sandy e a suposta pureza do jazz me fez lembrar “O gosto dos outros”. Vocês viram? É um filme incrível, da francesa Agnès Jaoui (que também é ótima cantora), que mostra como o gosto é determinado pelo status social mas também o determina. E a gente acompanha, perplexo, como um empresário grosseirão apaixonado por uma atriz tem que suar o terno para mostrar que também é gente num mundo (do teatro) em que todo mundo tem opinião, lê boas coisas, ouve boas coisas. É coisa boa demais para ser verdade, aliás.

Pois quando Marisa Monte lançou aquele “Memórias, crônicas de declarações de amor” - que na época, 2000, me pareceu chatíssimo e hoje me parece mais ainda - fiz um “blind test” com a minha enteada (aquela que gostava do “Sandyjúnior”). Botei para ela ouvir uma baladinha, chatiiiiiiinha, em que a Marisa esganiçava um “É estraaaaaaanhuuuuuu” e mandei: “Legal a nova música da Sandy, né?”. Ela parou, pensou e logo ficou indignada: “Mas essa eu ainda não ouvi!”

Ou seja, se, sem rótulo, toda muderna tem seus dias de baba-baladeira, por que não o contrário? Mas aí vem outro problema de gosto, que se deve discutir: os chamados “amantes do jazz”, que sabem a cor da camisa que o Charlie Parker usava no dia em que gravou “Laura” e, nos festivais, ficam tentando adivinhar a música no primeiro compasso. Haja.

E estes “amantes do jazz”, por exemplo, adoram a aborrecidíssima Madeleine Peyroux - que, vamos combinar, é muito mais brega do que a Sandy. Mas tem cara de triste e melancólica, toca aquele violãozinho safado e, inegavelmente, imita a Billie Holliday - quando Lady Day era acometida por um resfriado, é claro.

Isso tudo é menos engraçado quando se fala em “pureza” do jazz. Aí eu me arrepio. A última vez que alguém levou a sério esse negócio de “pureza” foi na Áustria, nos anos 30, e deu no que deu. Na Tropicália, a instalação histórica, o Hélio Oiticica pregou uma plaquinha: “A pureza é um mito”. Eu diria que, mais do que mito, é um perigo. Toc toc toc.

O certo é que ficou combinado por alguém (inteligente) em algum lugar (chique) que é legal gostar da Marisa, mexer seu uisquinho ouvindo a Madeleine se esganiçar e que não pega muito bem gostar da Sandy. Mas, como eu ia dizendo de novo quando isso tudo começou, eu gosto da Sandy.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Momento citação

Hoje, os escritores jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e na quinta ser traduzidos em todo o mundo.
Merecia repeteco esta citação já citada pelo Sérgio Rodrigues.