O dia se espatifa

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Tá ligada que Machu Picchu é uma coisa mais cultural, né?

Diálogo ouvido ontem à tarde - aos brados -  na fila do caixa de um estabelecimento da zona sul de Porto Alegre.

(É favor ler o diálogo com um foooorte sotaque portoalegreeense, daqueles com as palavras beeeem esticaaadas, saaabe?)

Perua 1 visivelmente com inveja da amiga com menos sotaque e não perua, dirigindo-se à amiga Perua 2:

- Guria, diz pra ela das tuas férias.

- Ai, guria, foi a viagem dos sonhos. Seis dias em Miami, dez no cruzeiro e mais quatro dias em Nova Iorque.

- E quanto tu pagou?

- Ai, acho que deu uns seis mil dólares.

Perua 1 se vira para a Nã0-perua:

- Tá vendo? Eu te disse que tu tá pagando muito caro essa tua viagem.

- Mas Machu Picchu é a viagem dos meus sonhos - reage a não-perua.

A Perua 2 adota um tom de voz de quem faz um alerta importante:

- Ah, tá. Mas tu tá ligada que Machu Picchu é uma coisa assim mais cultural, né?  A fulaninha foi pra lá e voltou arrasada, porque só conseguiu fazer compras no free shop.

Neste momento, eu finalmente resolvi sair de perto. Será que isso explica a gastroenterite que me vitimou ontem?

terça-feira, 15 de março de 2011

Quem precisa d'A Voz do Brasil?

Da série post que devia ser tweet, mas ficou muito comprido...

E então que hoje, enquanto uma locutora língua presa lia notícias emocionantes e megarrelevantes do Judiciário n'A Voz do Brasil, centenas de motoristas ficavam praticamente parados na Avenida Beira-Rio, em Porto Alegre, porque as emissoras de rádio não podem prestar seus serviços por conta de uma lei esdrúxula!

Pavor d'A Voz do Brasil!

domingo, 13 de março de 2011

Bial, quem diria, é o rei dos alienados

Lembro de usar muito o termo "alienado" em tom acusatório em discussões que tinha na adolescência, principalmente as que versavam sobre política ou bem-estar social de um modo geral. Olhando hoje a minha timeline do Twitter - em que ao mesmo tempo que gente se apavora com a explosão de um reator nuclear transmitida em tempo real por todos os meios de comunicação disponíveis outros tecem comentários a mim absolutamente incompreensíveis sobre o BBB 11 - percebo que a alienação ganhou uma vitrine deprimente e nonsense.

Ao fim e ao cabo, o que eu me pergunto é: o que passa pela cabeça do (um dia grande repórter que cobriu a queda do muro de Berlim in loco) Pedro Bial numa hora dessas? E mais: aquele estúdio um tsunami não pega, né?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ótima ironia em game sobre o atropelador

O meu colega (e macmaníaco imparcial) Rodrigo Schmitt de Andrade deu a dica deste game bacana sobre o atropelamento de ciclistas ocorrido em Porto Alegre para chamar a atenção para uma manifestação virtual de repúdio ao que aconteceu. Adoro ironia.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hoje é dia de Oscar!

E dia de Oscar é dia de perder followers no Twitter, porque baixa o meu espírito de porco, e eu resolvo manifestar todos os pitacos que muito pouca gente deve estar interessada em conhecer. Considerando que este ano eu não consegui ver quase nenhum dos filmes que concorrem, minha "cobertura online" vai ser, hm, como dizer, mais peculiar ainda. Você não pode deixar de perder! A partir da hora em que eu começar a assistir, no widget aí embaixo (esperando a tua participação, evidentemente).

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Como faz para não lembrar?

Não há um dia que se passe sem que eu pense no meu pai, e nas coisas que ele me ensinou e nas coisas que eu gostaria que ele visse acontecendo comigo. Ocorre que não há também uma semana que se passe sem que eu cite a minha Vó Heloísa, mãe dele, em algum momento que normalmente arrancaria dela alguma de suas frases espirituosas e observações mordazes.

Eu não preciso de datas para pensar nos dois, porque ambos sempre estiveram e sempre estarão presentes na minha vida. Então, será que dava para pelo menos eu deixar de lembrar que três dias depois do meu aniversário de 22 anos ele nos deixou, e ela se despediu dois dias depois de eu completar 36?

Bendita saudade, que até para de doer, mas não diminui nunca.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Do Foursquare e da minha incoerência coerente

Quando entrei para o maravilhoso mundo das discussões políticas, eu tinha um posicionamento muito claro. Eu era de esquerda. E prezava pela coerência. Aos 14, 15 anos, chamar alguém de "incoerente" tinha como objetivo o mesmo tipo de ataque que chamá-lo de "infantil". Em retrospecto, percebo que eu nem era tão de esquerda assim. Só era antidireita - o que sigo sendo até hoje, explicando meu voto no Serra e não no Lula em 2002 e na Dilma em 2010 (interprete como quiser).
Vista daqui, aquela tal "coerência" de que tanto me orgulhei até 1994 (quando briguei feio com meu pai por votar no FHC mesmo ELE ESTANDO ALIADO AO PFL!!!!), na verdade, beirava a estupidez. E ao dizer que beirava, estou sendo generosa comigo mesma. Porque fincar pé numa ideia mesmo depois de ela ter sido provada equivocada pela vida apenas para não dizer "eu estava errada" é de uma burrice extrema.
A minha mais recente - e divertida - atitude incoerente foi ter abraçado animadamente o Foursquare, que eu já havia refutado peremptoriamente em outras ocasiões, criticando o excesso de "exposição" das pessoas. A versão mais forte para a mudança de opinião deve ser o fato de que meu novo celular 3G facilitou o uso da coisica. E eu tô me divertindo horrores podendo listar os lugares bacanas a que vou e para dividir impressões e dicas com os amigos reais e virtuais. Foi uma mudança de atitude rápida e intensa. Em menos de um mês, ganhei quatro badges.

Acredito muito nas minhas crenças. O suficiente para poder trocá-las quando considerar a troca coerente.


Este post foi inspirado pelo Alessandro Dreyer e pela Barbara Nickel que bem flagrou o meu recuo. Mas deixo uma ressalva: sigo achando um absurdo fazer check-in em endereços particulares, da própria casa ou da casa de amigos. Tudo na vida tem limites.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quem eu quis ser um dia (mas logo desisti)

Durante os primeiros dias do ano letivo da segunda série do então primário, eu tive um ídolo. Era a Ana Maria, colega que sentava ao meu lado na sala de aula. Começava pelo nome. Ana Maria era um nome assim, básico, minimalista, algo que, mesmo inconscientemente, eu já achava muito chique. Os longos cabelos crespos dela estavam sempre perfeitamente bem postos, sem um fio fora do lugar, com cachos definidos e de um castanho claro brilhante. Tinha também o tom de voz da Ana Maria, sempre suave, sempre monocórdico - um luxo, acreditava eu, cria de família mezzo italiana, mezzo alemã.

Nas aulas de educação artística, a Ana Maria tinha um jeito impressionante de organizar o material em cima da carteira (era São Paulo, onde a classe gaúcha se chamava carteira, e a sala de aula, classe). Cada lápis de cor que escolhia usar era cuidadosamente retirado da caixa e, antes de ser substituído por outro, meticulosamente devolvido ao lugar de origem. Todos sempre perfeitamente apontados. Sempre arrumados na ordem em que vinham de fábrica.

Nos cadernos, cada linha que era pulada ganhava um desenhinho diferente (de uma flor, um coração, uma joaninha...). Sempre feito com o cuidado e a paciência relatados acima. E cada frase que ganhava um ponto final recebia também uma daquelas alisadinhas do papel que todos os fãs de papelaria costumamos dar nas primeiras palavras que imprimimos numa folha nova. Só que ela fazia isso o tempo todo. Além de tudo, a Ana Maria não caminhava, mas flutuava. Na educação física, fazia todas as atividades com absoluta indiferença. E não transpirava. Nem ficava ofegante.

Desencavei esse monte de informações dos meus arquivos mortos mentais hoje depois de ver entrar no ônibus em que eu estava uma moça com um olhar perdido, distante e blasé - igualzinho àquele que eu tanto admirei na Ana Maria naqueles primeiros dias de aula de 1982. Quase vinte e nove anos depois, passei a tarde tentando desvendar o porquê daquele fascínio. Não consegui. Só consegui lembrar de todos os detalhes sobre ela que tentei imitar: os cabelos bem ajeitados (que despenteavam à primeira brisa), os gestos delicados (que faziam com que eu demorasse demais para fazer tudo, e meus pensamentos acabavam sempre atropelando as minhas mãos), a voz baixa e monocórdica (quem me conhece deve imaginar a tortura que foi, ainda mais aos oito anos), os lápis de cor arrumados durante o desenho e não apenas depois (o que fazer com a criatividade que insistia em ser mais veloz do que a habilidade para ordenar as cores na caixa?), o caminhar flutuante (faz-me rir).

Não sei o que aconteceu com a Ana Maria. No ano seguinte, eu me mudei para Sorocaba e não faço ideia de qual era o sobrenome dela (sem chance de encontrá-la no Google ou no Facebook, pois). Lembro que era sempre dela uma das notas mais altas da turma (junto com a minha, que só deixaria de ser CDF absoluta alguns anos depois). Lembro também de ela estar sempre sentada na hora do recreio, com o olhar perdido no infinito, etérea (embora então evidentemente eu sequer soubesse da existência do termo "etérea"). E lembro que, entre uma brincadeira e outra, suada, com os cabelos desgrenhados e as bochechas vermelhas, eu olhava de longe para ela e sentia um pouquinho de inveja daquele ar de princesa que eu nunca consegui imitar por mais de três minutos seguidos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A melhor resolução de todas

No post de final de ano do ano passado, defini para mim mesma, aos olhos do meu respeitável - e seletíssimo - público de 17 leitores, o objetivo de "seguir em frente". Nada de emagrecer, fazer exercícios, engravidar, voltar a estudar ou assistir a filmes iranianos para parecer mais culta. E sabe que deu certo?

2010 foi o ano em que eu percebi que tenho algum talento para dar aulas e, embora estivesse adorando a vida de professora na Unisinos, soube respeitar os meus limites e pedir para sair quando o cansaço estava demais. Foi também o ano em que o Márcio e eu compramos uma casa nova depois de 10 anos e renovamos a nossa intenção de seguir juntos, assinando um contrato de financiamento de 30 anos.

No ano que termina amanhã, descobri que precisava melhorar mais do que imaginava como pessoa, e voltei à terapia. Fiz novas amizades e busquei demonstrar melhor para as pessoas importantes da minha vida o quanto elas são necessárias. No processo, perdi uma pessoa muito querida, tive projetos há muito acalentados frustrados, não consegui ver todo mundo que queria todas as vezes que quis e outras frustrações mais. Mas foram reveses que só fizeram aumentar a gratidão pelas coisas boas.

Por isso, como não se mexe em time que está ganhando - ou ao menos não fazendo feio frente às adversidades -, deixo aqui a resolução para o 2011 que começa depois de amanhã: seguir em frente.

Um beijo e muita luz e paz a todos :-)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

De como (res)surge a saudade

Organizando as gavetas do trabalho para encontrar tudo organizado ao voltar no dia 27 das férias que começam amanhã, encontrei as fotos que tinha na minha mesa da redação do clicRBS, de onde saí em 2006. Duas delas mostravam o Bubi e o Floc juntos. Daí que eu então lembrei de quanta saudade o Floc deixou.

Fim de ano é assim, né? Anteontem foi dia de sentir saudade do pai, na o dia em que ele faria 63 anos. Consequentemente, deu saudade da vó que nos deixou no começo do ano e de todos os que não estão mais aqui se não na nossa lembrança.

Hoje, eu reli este post de mais de três anos atrás, sobre a morte do Floquinho e chorei de novo.

Quem mandou limpar as gavetas?