O dia se espatifa: Da (falta de) etiqueta nos novos tempos

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Da (falta de) etiqueta nos novos tempos

Atire a primeira pedra o vendedor que, num dia mal humorado, não tenha pensado que seu trabalho seria muito mais fácil se não fossem os compradores, ou o psiquiatra que nunca tenha desejado - ainda que por um instante - o extermínio de todos os pacientes da face da terra. E não vou ser hipócrita de dizer que jornalista também não pensa de vez em quando que a vida seria mais simples se não fosse o leitor/telespectador/ouvinte/internauta e que professor não sonha um dia ter uma sala de aula sem alunos, só para variar.



Essa injustiça absoluta contra a figura genérica do cliente  - de qualquer tipo que seja - se deve, evidentemente, aos maus clientes. Aos malas, mal educados, prepotentes, obtusos, arrogantes e, em maior número e grau, os sem noção. Ninguém mais discute que ouvir o que o cliente tem a dizer e agir em relação a isso precisa ser o objetivo primeiro de qualquer profissional em qualquer área. Mas o trabalho de todos seria muito mais tranquilo se os clientes também atentassem para regras básicas de civilidade.



Toda essa introdução é porque ontem, em dado momento do show do Jorge Drexler, eu pensei que ele talvez tenha esperado - por um milésimo de segundo que fosse - que parte da plateia que lotava o teatro do Bourbon Country evaporasse. O músico uruguaio é um fofo que desde sempre estimula o diálogo com o público ao longo de suas apresentações. Só que essa demonstração de sintonia com o "mundo 2.0" acaba o transformando em alguns instantes numa vítima daquelas criaturas que (1) parecem nunca ter ido a um show em teatro na vida, (2) vão a um espetáculo com a intenção de aparecer mais que o artista e/ou (3) nunca levaram uma palmada pedagógica quando necessário.



Como ontem não dava para identificar as criaturas e muito menos dar essas dicas a elas pessoalmente, preparei uma singela listinha de coisas que podem parecer rabugice, mas, na boa, são apenas regras básicas de convivência humana aplicadas a um espetáculo realizado em teatro com lugares marcados:




  • Vocês que ficaram pedindo músicas: o show é num teatro, não num bar, certo? Não peça músicas. Ao menos não insistentemente. Os artistas planejaram e ensaiaram o espetáculo para funcionar de uma certa forma. É chato!

  • Vocês que ficaram gritando "lindo" ao final de cada música: existe um limite para quantos gritos de "lindo!" e "gostoso!" e outras demonstrações de devoção feminina. Quando os berros atrapalham que se ouça as músicas, é porque o limite foi ultrapassado. Amigas, quem estava ali para ser visto e ouvido era o artista, não vocês, valeu?

  • Vocês que ficaram fazendo piadas "internas" com o artista: não tem graça. Ou só eu notei o constrangimento do coitado tentando "mudar de assunto"?

  • Vocês que ficaram filmando o show: eu me pergunto, pra quê? Pra que pagar o ingresso? Só pra postar um vídeo escuro com som péssimo no YouTube e mostrar pros amigos como vão a eventos e são descolados? O show estava bem bacana, mas acho que vocês não chegaram a ver ainda, né?

  • Vocês que ficaram tirando fotos com flash: devem ter ficado bacanas as imagens chapadas pelo flash das cabeças dos coitados da frente, hein? Além do mais, atrapalha.



Toda vez que vou a shows em teatros, vejo essas coisas acontecerem. E toda vez eu me incomodo com isso. Um amigo disse ontem que não tem mais volta, que são os novos tempos, e meio que me olhou como se eu fosse uma chata careta que desrespeita o direito dos outros de me desrespeitarem. Mas, puxa vida, será que os novos tempos estão mesmo fadados a serem um tempo em que desrespeitar o espaço dos outros é algo aceitável. Ou pior: um tempo em que indignar-se com essa deseducação é visto como intolerância e falta de capacidade de adaptação ao novo? Ainda mais considerando que, pelo menos por ora, essas criaturas felizmente são minoria.

7 comentários:

  1. Infelizmente seu amigo está certo. São tempos que vieram pra ficar.Quando foi a última vez que foste ao cinema e não se chateou com as "matracas "que não calam a boca durante o filme.?
    Lamentávelmente ( com acento mesmo, me recuso a essa reforma porca na nossa rica língua) Somos escravos da massificação das novas "boas maneiras "...parabéns pelo blog...

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  2. Uma das experiências mais ridículas que presenciei em shows em POA (deve ser o mesmo em outros lugares do Brasil), além dos pedidos incessantes de músicas, foi o público tentar cantar junto ou acompanhar com palmas as músicas em um show do Madredeus no Teatro do SESI.

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  3. Se estás no cinema, e alguém atender o celular falando alto no meio do filme...
    se estás em casa e o vizinho ligar o som ao máximo...
    se estás no restaurante almoçando e o filhotinho do casal na mesa ao lado estiver aos berros, enquanto papai e mamãe olham em volta, orgulhosos, pra ver se todos estão vendo o pimpolho e como ele é "sapequinha"...
    se, ao caminhares na rua, o cidadão bem à frente libertar uma golfada de fumaça de cigarro que engoles inadvertidamente...
    se andas de ônibus ou de avião e o sujeito na fileira de trás resolver treinar tae-kwon-do chutando o encosto da tua poltrona...
    se atravessas a rua na faixa, e um motorista frear em cima de ti e ainda te xingar fervorosamente...
    se procuras descansar na praia e o cidadão parar o carro na tua frente e abrir a "boate" pra todo o litoral ouvir aquele som horroroso... não te cabe reclamar!
    Queixar-se de qualquer uma dessas presenças nada raras no cotidiano é, na visão contemporânea, ser um chato, um cretino, um estraga-prazeres. Civilidade é um luxo que muitas pessoas estão pouco interessadas em cultivar. E, se é verdade que cada época pode ser resumida em poucas palavras, arrisco-me a dizer que as que resumem esta época seriam: "OS INCOMODADOS QUE SE MUDEM".

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  4. Paulo de Santhiago26/07/2010 11:39

    Vc está certa em ficar irritada com o comportamento da plateia porto-alegrense - é mesmo ridículo, caipiresco, grosseiro. E o seu amigo está errado, o conformismo covarde do povo desta cidade faz com que, cada vez mais, ela seja desdenhada por artistas e turistas, como um lugar chato, com uma gastronomia rudimentar e repetitiva e com uma população deseducada e brega. Frequentem outros locais de espetáculos pagos, seja no Rio, ou em SP, ou em BH, ou em Brasilia e verão que o comportamento das pessoas é urbano, é civilizado, é educado - sem deixar de ser caloroso, participativo, simpático. O gaúcho sofre da síndrome da modernidade forçada e burra. Não quer parecer ser o chato que é! Assim, vamos ladeira a baixo em tudo, em qualidade de vida, em educação, em administração pública, em destaque nacional, na saúde coletiva, etc, etc...A verdade pode ser ofuscada por, por exemplo, as mentiras diárias da rbs e seu noticiário ufano, tendencioso, herdado da ditadura militar passada, mas não pode ser aniquilada! Sempre aparece e aparecerá cada vez mais, cada vez que um cidadão reaja com o repúdio que vc aqui revela. Continue assim, por favor! Tenha personalidade, exista!

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  5. Mariana Müller26/07/2010 11:44

    Assisti no sábado e concordo em número, gênero e grau contigo. Adorei o desabafo :)

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  6. Estava no show sábado e mais do que qquer coisa amei a sempre maravilhosa presença de palco do Drexler. Q mto sutilmente tentou fazer a plateia se tocar que existem momentos para participar e outros para apreciar!! Ah! E pedi o cara em casamento foi realmente ridíiiiiculo!!!

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  7. No show do Aerosmith aqui em Poa, que não foi em teatro fechado, eu já tinha me dado conta disso. As pessoas estavam mais preocupadas em fotografar, filmar e em ligar pros amigos do show, pra dizer "como eu sou legal, estou no show, tu não estás", do que em realmente curtir o show. Sinal dos tempos, as pessoas acham mais importante mostrar que estavam no show do que terem as boas lembranças de terem estado no show.

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