O dia se espatifa: Não fui eu que escrevi...

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Não fui eu que escrevi...

Mas podia ter sido.

Estava escrito nas estrelas
Lembranças do PT e uma notícia do mundo cão

O ano de 1989 foi um dos piores da minha vida. Nas eleições, na contra-mão da maioria dos meus amigos, escolhi votar em Covas, que julgava um homem de bem, comprometido com o Brasil, ao contrário de Lula, que me parecia no máximo pitoresco, e de Collor, evidentemente doido. O problema é que decidi não só votar em Covas, mas também ajudar sua candidatura. Distribuía folhetos e santinhos, e usava, nas janelas do meu carro, uns bonitos adesivos de propaganda, feitos pelo Millôr.

Pois nunca me senti tão discriminada e tão só quanto então. Num instante nossos amigos deixaram de ser amigos e viraram petistas full-time, soltando fogo sagrado pelas narinas ideológicas. Praticamente cortaram relações comigo e os que pensavam como eu. Um ou outro ligava, mas não conseguia disfarçar a superioridade autocongratulatória, de quem dá uma esmola ou visita uma comunidade carente.

Eram visivelmente superiores àquelas pessoas que tinham o impudor de pensar diferente, e que mereciam, no mínimo, o ostracismo social. Estavam sendo ideologicamente magnânimos. Vivi desde situações bizarras, como a discussão com um casal de milionários consumistas defendendo o pseudo-proletariado no sofá da sala repleta de peças art-nouveau, às constrangedoras, como o dedo espetado no meu peito por uma estagiária do "Jornal do Brasil" que, no elevador, me cobrava não estar usando um button do PT, Pureza Total.

O pior era voltar para casa. Meu caminho passava pelo Garota de Ipanema, que se transformara em point. Petista, claro: não havia outros. O mundo era petista. Entrar na Vinicius com o sinal fechado virou pesadelo. Meu pobre Fiat atravessava um corredor polonês em que levava murros e era chutado pelos democratas alcoolizados. Quando eu finalmente estacionava na garagem, antes de desabar em prantos, ainda tinha que tirar os lulalás que haviam sido colados na lataria. O que me esperava lá em cima não era melhor: ofensas e ameaças nojentas na secretária eletrônica.
* * *
Atravessei a ditadura mais ou menos incólume, apesar de ser jornalista, como tantos, abertamente contra o regime. A questão é que, dos militares, não se esperava outra coisa senão antagonismo e "pau neles!" (nós). Aquela era a ordem natural das coisas, a lei e a ordem, eles de lá, nós de cá. Mas como lidar com amigos e companheiros de idéias subitamente transformados em inimigos encapuzados com a máscara da ideologia? Como lidar com a indiferença e a descrença, ou, no máximo, com a "infinita paciência", com que os amigos recebiam meus desabafos?

A questão é que, para eles, não havia partido mais democrático do que o PT, santamente mergulhado em eternas reuniões para decidir as menores coisas. O que acontecia lá fora eles não sabiam, nem queriam saber. Ignorância é poder!

A violência na secretária eletrônica e na lataria do automóvel era excesso natural de uns poucos "radicais"; meu sufoco dentro do carro sacudido pela turma da Vinicius era bobagem de boneca intelectual, coisa de mulherzinha.

Perdi alguns amigos, perdi toda a confiança em outros. Mudei de trajeto, desliguei a secretária e, decisão pequeno burguesa, jurei que jamais votaria no PT. Quando Covas perdeu no primeiro turno, passei a defender o voto nulo. A vida do carro, do qual tirei os adesivos, melhorou muito; já a minha não.

Pouca gente entende o voto nulo como manifestação política. Não passava pela cabeça de ninguém que uma pessoa razoavelmente letrada e medianamente civilizada pudesse optar por anular o voto. Para mim, que considero o voto uma procuração que passo a alguém para exercer meu direito de cidadania, não havia outra saída.

Meus ex-amigos petistas estavam convencidos de que, não sendo Lula, eu era, inevitavelmente, Collor. Collor envergonhada, sem coragem de declarar. Para eles era mais fácil "raciocinar" assim. É curioso, e ao mesmo tempo assustador, que não tenha ocorrido a nenhum deles que pudesse haver algo profundamente errado com a premissa de que, numa eleição livre, alguém precisasse esconder seu voto. Mais curioso (e igualmente assustador) era observar o pequeno número de carros que circulavam com adesivos do Collor. Qualquer pesquisa de opinião pública feita a partir de adesivos de vidros de automóveis daria vitória esmagadora para o PT.

Até hoje me pergunto quantos votos o PT não perdeu naquele ano por causa da sua falta de vocação para o diálogo, ou melhor, sua falta de desconfiômetro -- e da truculência da sua militância. Sempre que ousei tocar nesse assunto com petistas, nenhum jamais reconheceu que houve ali qualquer coisa errada. Tudo mero exagero de xiitas exaltados.

Exatamente como hoje, exceto que a violência deu lugar à roubalheira. Não sei o que é pior.

* * *
Mas nem tudo são más notícias. Na semana passada, em Pelotas, os psicopatas Fernando Siqueira Carvalho, Marcelo Ortiz Schuch e Alberto Conceição da Cunha Neto, que assassinaram a cadelinha Preta arrastando-a pelas ruas amarrada a um carro, aceitaram a transação penal proposta pelo Ministério Público.

Isso, em linhas gerais, significa que não foram condenados, mas receberam penas: multa de R$ 5 mil para cada um, e prestação de serviços à comunidade, no canil municipal, por oito horas diárias, durante um ano.

É muito, mas muito menos do que mereciam, mas já é um começo.

Há alguns anos, nada lhes teria acontecido.

Cora Rónai, n'O Globo de hoje

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