O dia se espatifa: Quem eu quis ser um dia (mas logo desisti)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quem eu quis ser um dia (mas logo desisti)

Durante os primeiros dias do ano letivo da segunda série do então primário, eu tive um ídolo. Era a Ana Maria, colega que sentava ao meu lado na sala de aula. Começava pelo nome. Ana Maria era um nome assim, básico, minimalista, algo que, mesmo inconscientemente, eu já achava muito chique. Os longos cabelos crespos dela estavam sempre perfeitamente bem postos, sem um fio fora do lugar, com cachos definidos e de um castanho claro brilhante. Tinha também o tom de voz da Ana Maria, sempre suave, sempre monocórdico - um luxo, acreditava eu, cria de família mezzo italiana, mezzo alemã.

Nas aulas de educação artística, a Ana Maria tinha um jeito impressionante de organizar o material em cima da carteira (era São Paulo, onde a classe gaúcha se chamava carteira, e a sala de aula, classe). Cada lápis de cor que escolhia usar era cuidadosamente retirado da caixa e, antes de ser substituído por outro, meticulosamente devolvido ao lugar de origem. Todos sempre perfeitamente apontados. Sempre arrumados na ordem em que vinham de fábrica.

Nos cadernos, cada linha que era pulada ganhava um desenhinho diferente (de uma flor, um coração, uma joaninha...). Sempre feito com o cuidado e a paciência relatados acima. E cada frase que ganhava um ponto final recebia também uma daquelas alisadinhas do papel que todos os fãs de papelaria costumamos dar nas primeiras palavras que imprimimos numa folha nova. Só que ela fazia isso o tempo todo. Além de tudo, a Ana Maria não caminhava, mas flutuava. Na educação física, fazia todas as atividades com absoluta indiferença. E não transpirava. Nem ficava ofegante.

Desencavei esse monte de informações dos meus arquivos mortos mentais hoje depois de ver entrar no ônibus em que eu estava uma moça com um olhar perdido, distante e blasé - igualzinho àquele que eu tanto admirei na Ana Maria naqueles primeiros dias de aula de 1982. Quase vinte e nove anos depois, passei a tarde tentando desvendar o porquê daquele fascínio. Não consegui. Só consegui lembrar de todos os detalhes sobre ela que tentei imitar: os cabelos bem ajeitados (que despenteavam à primeira brisa), os gestos delicados (que faziam com que eu demorasse demais para fazer tudo, e meus pensamentos acabavam sempre atropelando as minhas mãos), a voz baixa e monocórdica (quem me conhece deve imaginar a tortura que foi, ainda mais aos oito anos), os lápis de cor arrumados durante o desenho e não apenas depois (o que fazer com a criatividade que insistia em ser mais veloz do que a habilidade para ordenar as cores na caixa?), o caminhar flutuante (faz-me rir).

Não sei o que aconteceu com a Ana Maria. No ano seguinte, eu me mudei para Sorocaba e não faço ideia de qual era o sobrenome dela (sem chance de encontrá-la no Google ou no Facebook, pois). Lembro que era sempre dela uma das notas mais altas da turma (junto com a minha, que só deixaria de ser CDF absoluta alguns anos depois). Lembro também de ela estar sempre sentada na hora do recreio, com o olhar perdido no infinito, etérea (embora então evidentemente eu sequer soubesse da existência do termo "etérea"). E lembro que, entre uma brincadeira e outra, suada, com os cabelos desgrenhados e as bochechas vermelhas, eu olhava de longe para ela e sentia um pouquinho de inveja daquele ar de princesa que eu nunca consegui imitar por mais de três minutos seguidos.

7 comentários:

  1. giseleneuls19/01/2011 17:58

    Cássia, essa menina tinha um TOC daqueles hein?!... ainda bem que vc não conseguiu imitar! hihihihi

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  2. danrodrigues19/01/2011 18:02

    Esses dias eu me peguei num mesmo pensamento. Fiquei pensando em dois guris que sempre tentei imitar. Eles sempre eram melhor que eu em tudo (pelo menos eu pensava), porém, diferente de ti, eu sei o fim dos dois. Não foi muito glamuroso e hoje eu constato que ser eu sempre foi mais divertido.

    Voz baixa e caminhar flutuante definitivamente não combinam contigo! Hoje ainda estava ensinando alguns aqui o caminhar de "gente ocupada". Uso o tempo todo aqui, passageiro chama, eu miro num ponto no fundo do avião, seguro algo na mão e faço cara de ocupado. Só não exagero muito, se não os indianos acham que o avião vai cair em alguns minutos.

    Beijão!

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  3. Maria Helena19/01/2011 20:07

    Cássia, consigo imaginar, em todos os teus posts, a cena de cada frase postada. Acho q todo mundo um dia quis ser uma Ana Maria. Ainda bem que poucos conseguem :)

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  4. que medo de voar contigo!

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  5. Anas Marias são chatas pra cacete.

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  6. cara, pensei a mesma coisa. "que criatura CHATA que me pareceu essa ana maria" :)

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  7. [...] estava contando como, na segunda-série do então primeiro grau – a mesma em que eu sonhava ser igual à Ana Maria deste outro post aqui -, a turma participou da gincana do colégio com um desfile que representava a história da Alice [...]

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